Quais as melhores práticas em gestão que regerão o Novo Brasil e o papel da liderança corporativa?


Postado em 15 de maio de 2018

Os últimos acontecimentos no cenário político e econômico brasileiro não deixam dúvidas de que a maneira como muitos gestores atuam deve mudar radicalmente daqui para frente. Estes acontecimentos estão empurrando um processo de revisão sobre a maneira de conduzir negócios com ética, transparência e honestidade.

Em primeiro lugar é importante ressaltar que a ética não é um conjunto de proibições, tão pouco um sistema impossível de ser colocado em prática. A ética é fundamentada no bem e nos princípios de boa conduta, que regem as relações honestas e transparentes, permitindo que as partes envolvidas alcancem plenamente os propósitos almejados.

Portanto, adotar conduta ética no trabalho implica em construir relações de qualidade com colaboradores de todos os níveis, o que propicia um exercício prazeroso de honestidade, integridade, humildade, comprometimento e colaboração. Analisar os fatos recentes de quebra de ética na gestão de algumas empresas brasileiras nos ajuda a entender que agir de maneira ética e responsável só traz benefícios.

Ao colocar dessa forma, parece que estou falando de ética como um instrumento punitivo, criado apenas para exigir disciplina e controle. Entretanto, ao analisar a realidade que enfrentamos em nosso dia a dia, fica evidente que é muito mais fácil desempenhar um trabalho com qualidade e competência quando se conhece as regras e o que se espera de você. A ética é, portanto, um dos pilares do crescimento sustentado.

A onda de livre concorrência e inovação é outro fato que veio para ficar. Estão aí o Uber, Airbnb, Netflix e muitos outros serviços baseados em tecnologia, que não deixa dúvida sobre a sua penetração. Tentar resistir o avanço de novos modelos de negócios é o mesmo que tentar frear o avanço da civilização. A história tem mostrado que as novas tecnologias têm a capacidade de destruir velhas empresas, modelos de negócios e criar novas profissões.

Entretanto, é importante ressaltar que serviços como o Uber, não estão substituindo os taxis, assim como o Airbnb não pretende substituir as agências de viagem, ou hotéis. Ambos serviços se baseiam em tecnologias que permitem unir a demanda: passageiros e hospedes, com a demanda: taxis e quartos de hotel. O segredo, no entanto, está na forma ágil e sem excesso de regulação.

Está mais do que claro que as empresas de tecnologia estão transformando a nossa vida. Por exemplo, o jeito como ouvimos música ou assistimos a filmes, mudou dramaticamente nos últimos 10 ou 15 anos, mas não significa que deixamos de ouvir música ou assistir a um filme, apenas mudou a forma como isso acontece. Por isso, é importante aos mercados se autorregularem, de maneira a evitar barreiras à livre concorrência e à inovação.  Pagar impostos e respeitar as leis faz parte de um conjunto de regras irrefutáveis do mundo dos negócios, assim como evitar a competição desleal.

Outro aspecto que não pode estar fora das agendas dos executivos brasileiros é a produtividade. Décadas de baixo crescimento da produtividade na América Latina deixaram um enorme legado de atraso comparado à muitos países. Atualmente são necessários mais de quatro trabalhadores brasileiros para produzir o mesmo que um trabalhador americano. A produtividade de um trabalhador brasileiro equivale a 24,1% da produtividade de um trabalhador americano, ou seja, muito parecida com os níveis de 1950, que eram de 24,3%. Mas o que mais chama a atenção é que há 35 anos estava em 38,9%.

O discurso de que apesar de menos produtivo, o trabalhador brasileiro é competitivo no custo já não encontra mais eco, pois em termos de renda gerada por trabalhador, o Brasil está muito distante dos países que ocupam o topo. Um estudo do IPEA de 2011 aponta que, enquanto por aqui a produtividade é de US$ 17 mil por trabalhador ao ano, nos países mais produtivos essa relação chega a US$ 70 mil por trabalhador/ano. A Coreia do Sul, que em 1980 tinha níveis de produtividade semelhantes ao do Brasil, avançou de maneira acelerada alcançando US$ 55,484 por trabalhador/ano.

Buscando entender a origem desta ineficiência, fica claro que a tecnologia é um fator relevante para os ganhos de produtividade, desde revisão dos processos até pesquisa e desenvolvimento de produtos com valor agregado.

Um fator que também impacta enormemente a produtividade é a qualificação da mão de obra, que resulta da qualidade da educação. É sabido que em todos os setores é cada vez mais requerido o uso de máquinas e sistemas inteligentes, que exigem capacidade cognitiva para operá-los. No entanto, o trabalhador brasileiro está longe de poder competir com concorrentes globais, em comparação ao trabalhador americano que passa mais de 12 anos na escola e mais de 120 horas de treinamento por ano. Isso sem levar em conta a qualidade do ensino, que é cada vez mais deficiente nos países da América Latina.

Dois aspectos igualmente relevantes são a infraestrutura deficitária, resultante do baixo nível de investimentos, e a fragilidade do ambiente de negócios na região, sem levar em conta o problema da educação e formação do capital humano que, em termos econômicos, se reflete em baixa produtividade e competitividade das empresas.

A colaboração também é crucial. Muitos líderes ainda acreditam que o caminho do sucesso empresarial resulta da competição desenfreada, que em boa parte é consequência do fato de que, desde muito cedo, somos treinados à colocar os nossos interesses em primeiro lugar. O pensamento lógico é: vivemos em um mundo competitivo, portanto, é preciso aprender a ser o melhor em tudo o que fazemos.

Somos treinados para enfrentar disputas, e em como superar o competidor, seja no trabalho, na escola, no estacionamento do shopping, enfim enxergamos a vida como se fosse um funil. A maioria das relações da vida cotidiana é baseada na contínua disputa, no confronto, no jogo de interesses.

No entanto, aqueles que estão mais atentos, percebem que existem movimentos sociais em busca de rearranjar a relação entre pessoas e entidades. Seguramente já ouviram também termos como: crowdfunding, co-working, creative commons, crowdsourcing, wiki, que são nada mais do que formas de colaboração. Isto mostra que um mundo novo está sendo edificado, e que traz em seu bojo um modelo de sociedade baseado na sabedoria e na inteligência coletiva.

Um dos efeitos positivos da colaboração é a criação de um ambiente propicio à inovação. Atrevo-me a dizer que sem colaboração não existe inovação, pois o embrião da inovação sempre é uma ideia nova, que primeiramente precisa de espaço para emergir, e para se transformar em inovação é imperativo o engajamento de um grupo de pessoas imbuídas do mesmo propósito.

Apesar dos benefícios, não há como forçar a colaboração, mas podemos incentivá-la. Se nos conscientizamos que existe um ambiente altamente dinâmico nas empresas, dos efeitos da economia global, pressão por eficiências, a colaboração passa a ser um caminho tremendamente viável. Para quebrar o paradigma da competição desmedida, é imperativa a mudança de atitude dos gestores, que devem aprender a atuar em diferentes papéis, estimulando a criatividade e inovação, e influenciando as pessoas sobre os reais benefícios do trabalho colaborativo.

Luiz Alves – Senior Vice-President Latin America na Iron Mountain