O que as palavras mais usadas no LinkedIn podem dizer sobre o mercado de trabalho?


Postado em 15 de maio de 2018

Há mais de seis anos o LinkedIn realiza um levantamento global que mapeia as 10 palavras mais utilizadas por seus usuários. Uma nova lista acaba de sair e, em 2017, no ranking brasileiro, a palavra mais utilizada foi a mesma do ano anterior: especializado. Esse dado pode soar como coincidência para alguns, mas eu afirmo que a explicação é mais óbvia e reflete o cenário do mercado econômico e de trabalho que vivemos.

Convidada pelo LinkedIn, tive a oportunidade de fazer uma análise dos últimos cinco anos deste levantamento, no que envolve as palavras preferidas dos brasileiros. O primeiro ponto que me chamou a atenção foi o fato de que, entre 2013 e 2016, as palavras mais utilizadas possuíam características comportamentais ou de gestão: responsável, estratégico, criativo, eram as preferidas. No entanto, mesmo que em 2016 as palavras comportamentais ainda se destacassem, é possível ver um aumento e migração para aquelas que demonstram competências técnicas, que foram as vencedoras em 2017: especializado, com experiência, qualificado, entre outras, foram ganhando terreno. Tudo isso tem uma boa explicação.

Olhando para esses últimos anos, o que eu fui percebendo? Essa mudança de palavras está diretamente relacionada com a crise que enfrentamos. Afinal, quando falamos da crise, estamos nos referindo às empresas que foram enxugando seus quadros, de pessoas que estão em busca de emprego e de empresas que, agora enxutas, estão em busca de pessoas que saibam fazer. Elas não têm tempo para aquele profissional que precisa ser lapidado, não há tempo para investir no desenvolvimento, então, busca-se um colaborador mais especialista. Isso impacta diretamente naquele que está em busca de uma colocação e que já percebeu esse movimento do mercado de trabalho. O resultado? Os profissionais começam a construir seus currículos de forma a mostrar o que eles sabem, é um grito de: “eu sei fazer isso”, eu estou pronto”, “eu tenho experiência”, “eu tenho bagagem”.

Um ponto bacana a se saber é que, no passado (bem lá atrás), havia uma valorização muito grande do conhecimento técnico. Naquela época, o que valia era exatamente o quanto você sabia fazer, a faculdade que tinha cursado, a pós-graduação que havia concluído. Tudo isso tinha um peso muito grande para o desenvolvimento da carreira. De repente, passou-se a falar muito nas competências comportamentais que precisam ser desenvolvidas e exploradas. E assim também tivemos o tempo da supervalorização do coeficiente comportamental. Agora, percebo que entramos no momento do equilíbrio: as competências comportamentais são muito importantes, mas o técnico também. Inclusive, vale destacar que a questão técnica atual difere da do passado: hoje, é preciso que o especialista consiga ir além da sua área para aprender coisas que não fazia antes. Equilíbrio.

A crise fez com que as pessoas olhassem para o currículo delas e colocassem ali o que é mais importante para chamar a atenção das empresas, mas precisamos garantir que esses profissionais tenham as duas coisas. É muito bacana que as pessoas comecem a entender que a experiência tem o seu valor e ela agrega. As empresas buscam profissionais com experiência em determinados pontos. Porém, as competências comportamentais continuam sendo muito importantes porque essa experiência, esse conhecimento técnico, por si só, não dá conta do mundo. Por que ele não dá conta? Porque, o futuro do trabalho – que já estamos vivendo – exige conhecimentos que mudam o tempo inteiro, então, ser especializado, hoje, em algo, não significa que daqui há cinco anos esse algo fará sentido.

Sofia Esteves é Presidente do Conselho de Administração da Cia de Talentos